Quando ouvi a proposta do Estranhar o familiar imaginei que isso era algo impossível, pois entendia os vocábulos estranho e familiar quase que antônimos. Porém com a prática do olhar de novo, percebi que há muito já não enxergava a minha cidade, embora a visse todos os dias. Na sequência do percurso fui percebendo os valores culturais que a cidade possuía, na verdade, a falta de valores culturais próprios, porque percebi que a cidade vivia á margem da cultura de massa que provém dos grandes centros como Brasília, e também dos meios de comunicação como TV e rádio. Quando pensava ou perguntava para alguém sobre arte, o exemplo era sempre alguém famoso da TV. Hoje eu entendo a proposta das ações extremamente benéficas para a cidade, pois tem aberto horizontes não somente para as artes visuais mas para a expressão cultural como um todo.
A busca pela porta de entrada me levou até a Feira Municipal, a principal defini esta instituição como porta, no entanto não sentia muito estímulo na ação e percebi que aquele era um caminho errado, pois após bater na porta, caso alguém abrisse, eu teria que entrar satisfeita ou não. Decide andar um pouco mais. Quando, para minha surpresa, ao passar em frente a cadeia, o diretor, que já conhecia na escola, convidou para conhecer o local. Foi quando a luzinha da idéia acendeu e decidida, falei com ele sobre a ação que prontamente concordou.
Voltei para a etnografia. Esse foi o primeiro contato com a cadeia propriamente dita. Observei as instalações e falei com alguns presos. Pensando na questão do acesso e da segurança decidi que trabalharia com as mulheres, pois estas ficam em uma área de mais acessível onde eu poderia me comunicar sem ter que solicitar a retirada delas das celas.
Respondendo ás questões sobre as considerações finais no processo de avaliação, eu entendo hoje que o valor da intervenção para mim não está ligado somente ao processo acadêmico de aprendizagem, mas uma lição de vida e de cidadania, pois pude perceber o quanto aquelas pessoas são carentes de valores morais e afeto, se sentem abandonadas pelas famílias e pela sociedade. Uma das presas me perguntou sobre o que as pessoas diziam quando eu falava que estava trabalhando na cadeia. Esse questionamento já reflete a convivência com o preconceito. Em outro momento a mesma presa (esta se destaca dentre as demais por ser mais comunicativa e ter um nível sócio-cultural mais amplo) me perguntou se eu tinha medo delas.
Com relação ao plano traçado e os que de fato aconteceu dentro da ação, me considero feliz no resultado, por que, apesar de ter que adiar alguns eventos todo que havia planejado aconteceu, exceto a apresentação final dos resultados, mais isso já está programado como uma celebração para o final do ano.
Isso já é fruto da significação da ação para todos os envolvidos, eu pretendo voltar lá com outras oficinas e tentar estimular outros grupos a realizarem o mesmo, as presas pediram muito que as ações não parassem de acontecer e o diretor quis que eu apresentasse as pinturas no dia do almoço que eles receberam da comunidade religiosa.
Olhando a significação da ação de um modo mais subjetivo, posso concluir que em mim instigou a necessidade do prestação de serviço voluntário além de abrir a minha mente para a realidade das cadeias, como diria Hebert Viana: A vida não é filme. E eu entrei ali dentro acreditando que com meia dúzia de palavras aconteceria o milagre da transformação, assim como acontece no cinema. Hoje com a mentalidade mais madura, percebo que o processo de recuperação é lento, porém precisa ser contínuo se quisermos diminuir a reincidência e a gravidade do problema prisional no Brasil, fato que justificou a minha ação.
Para as presas a ação significou uma porta para o lado de cá, a percepção de que algo as espera do lado de fora, e que esse algo, pode ser bom. “Eu to gostando disso aqui, acho que quero continuar a pintar, cê da o restinho de tinta pra nós?” fala da Ju. “Meu Bem!! Olha que lindo! Virei artista!!” fala da Si, ao mostrar o retrato pintado ao marido pela janela da sala de aula. “Nossa! Eu fiquei bonita demais, to apaixonada por mim mesma!” fala da Ro, ao ver a sua pintura finalizada. Também trabalhou a auto-estima. “Eu tava com vergonha de tirar as fotos, achei que eu ia ficar feia demais. Mas agora eu gostei demais. To me achando linda.” Ro ao admirar a pintura finalizada.
O que me motivou nessa ação foi justamente, quando ao me apresentar às presas, o diretor me mostrou os tapetes que elas produziam. E uma delas, a cada segundo, agradecia ao Diretor Sérgio, o fato deste ter incentivado o trabalho. Percebi o quanto as atividades laborais, e também artísticas poderiam ajudar aquelas pessoas no seu processo de recuperação. E nesse aspecto também fomos felizes no resultado, pois percebi o quanto elas prometiam bom comportamento para continuar na ação.
Porém, como nem tudo são flores, uma das alunas não teve paciência em continuar e deixou o trabalho pela metade e voltou para a cela. Ainda assim considero o saldo extremamente positivo.
A auto-avaliação que propus na programa da ação sofreu uma pequena mudança. Quando sugeri que elas respondessem um pequeno questionário, onde elas falariam da ação, elas não se mostraram muito motivadas, umas pelo baixo grau de estudo e outras por não se considerarem capazes de fazê-lo. Para não gerar constrangimento decide que faria as mesmas perguntas propostas oralmente, no decorrer da ação, sem que elas percebessem que estavam sendo avaliadas. Pode concluir que a principio a motivação delas era ter um razão para sair da cela, mas com o envolvimento na ação elas passaram a se interessar verdadeiramente pela intervenção.